Talvez o segredo da felicidade esteja justamente na busca em se fazer aquilo que gosta e, após um tempo de realizações, poder colher os frutos do que se fez. Quem conversa com o comendador Manuel Rodrigues Tavares de Almeida logo nota sua grande paixão pelo trabalho e também uma grande generosidade em acolher e ensinar a quem se interessa. Ao subir pelo elevador dos escritórios da sede das Indústrias Reunidas de Bebidas, de sua propriedade, na cidade de Rio Claro, sou conduzido pela secretária até a porta de sua sala. "O senhor Almeida já está à sua espera", reforça. Ao fundo pode-se ouvir o tilintar das garrafas na linha de produção que trabalha a todo vapor na fabricação das mais conhecidas cachaças do Brasil e do mundo. Tatuzinho, Velho Barreiro, 3 Fazendas são algumas das grandes marcas produzidas ali. Através das lentes dos óculos daquele respeitável senhor prestes a completar seus 81 anos é possível ver claramente o olhar do adolescente de 18 anos, cujo desejo de sair das dificuldades o levou a atravessar o Oceano Atlântico e a trabalhar muito. Tanto que aposentadoria é palavra que não existe em seu dicionário.
"Não penso em parar. Meu trabalho é parte de mim, não me vejo sem ele", diz. As mãos fortes e um pouco desgastadas pelo tempo percorrem a mesa. Enquanto vasculha sua memória para relembrar o começo de tudo, fita o horizonte e, quando encontra uma boa história para contar, sorri e reforça a ênfase nos pontos mais importantes com gestos largos e generosos. O ano é 1949.
Devastado após a Segunda Guerra Mundial e assolado pela ditadura de Salazar, Portugal era um lugar difícil de se viver. Se por um lado a beleza de suas cidades e campos deslumbrava até mesmo seus habitantes nativos, por outro a face horrível da dificuldade e da falta de oportunidades fazia com que seus filhos mais jovens e dispostos se aventurassem mundo afora. O Brasil era um dos destinos favoritos desses portugueses cuja única riqueza era sua força de trabalho. Convidado pela reportagem da Trifatto a passear por pensamentos, Almeida agora tem dezoito anos e, recém-chegado ao Brasil, vai trabalhar numa padaria de um tio que já havia se estabelecido em São Paulo.
"Foram quatro anos na padaria, mas sempre tive o pensamento em querer ter um negócio próprio. Uma quitanda, ou algo semelhante, para começar. Tomei coragem e fui pedir um empréstimo, mas, com medo de perder o funcionário, ele me disse que naquele momento não tinha o dinheiro", relembra sorrindo. Um outro amigo, um pouco melhor de vida que Manuel, lhe emprestou um bom dinheiro, mas insuficiente para se comprar a sonhada quitanda. Pelas contas da época, aquele dinheiro só dava para comprar um carro.
"Comprei o tal carro e fui trabalhar de taxista em São Paulo", conta. "Naquele tempo até era bom, porque não havia tantos congestionamentos e o trânsito era bem mais tranqüilo", sorri. Do táxi, após um tempo, surgiu a oportunidade de se tornar sócio de uns amigos que já iniciavam um bom caminho de prosperidade no mundo dos negócios imobiliários. "Era algo diferente. As pessoas interessadas em comprar uma indústria, por exemplo, vinham até nós e relatavam em que estavam interessadas. Aí saíamos em busca daquilo. Esse negócio rendia boas comissões", conta, tomado de saudade e alegria. Data dessa época também os primeiros investimentos em padarias, que mais tarde lhe renderam a propriedade de uma rede de 12 estabelecimentos.
Dentre eles, a famosa padaria Danúbio, no Brooklin, em São Paulo. "Bastante trabalho, mas foi nessa época que os negócios começaram de fato a dar certo". TATUZINHO O tempo passou e, em 1969, aparece um grupo de investidores na imobiliária interessados em comprar uma indústria que renda bons lucros, de preferência na cidade de São Paulo. Naquele tempo, Manuel já era uma referência para os imigrantes portugueses, e a paixão pelo futebol o havia levado à vice-presidência da Portuguesa de Desportos, seu time do coração. "Hoje ainda sou do Conselho. Mas sou daqueles conselheiros eternos", brinca.
O futebol e a procura pela empresa pretendida pelos investidores o levou ao presidente do XV de Piracicaba, comendador Humberto D'Abronzo, que tinha a intenção de vender a fábrica de aguardente Tatuzinho. "Fiquei uns dias em Piracicaba para saber mais sobre o negócio e parti para São Paulo. Reuni os interessados, mas houve certa resistência. Me lembro então, que disse a eles que o negócio era muito rentável que, se não aproveitassem, eu mesmo iria ter de comprar", completa Almeida.
Após muitas conversas, os empresários acabaram topando, desde que Manuel viesse tocar a empresa em Piracicaba. "Não tinha a intenção de vir para o interior, isso foi acontecendo naturalmente. Depois apareceu outro negócio de ocasião. A família Maniero, em Rio Claro, me ofereceu a fábrica da caninha 3 Fazendas. Aproveitei e a incorporei à Tatuzinho, mantendo as duas marcas", revela. Almeida se diz contente em ver a cachaça genuinamente brasileira ganhar o respeito dos grandes apreciadores e especialistas em bebidas pelo mundo afora. "Antes as pingas eram vistas como bebidas de segunda categoria.
Hoje temos as cachaças nobres cuja produção é muito disputada pelos clientes e apreciadores do mundo todo. Isso é motivo de muito orgulho para a gente. E é um setor da economia muito importante para o país, que emprega milhares de pessoas", analisa. Hoje a IRB Tatuzinho 3 Fazendas é uma das maiores fabricantes de bebidas do País, com constantes inovações que não param de surpreender o mercado, como a reformulação da apresentação da cachaça 3 Fazendas, da linha tradicional da cachaça Velho Barreiro, com as edições Gold, numa reserva especial acondicionada em luxuosa garrafa dourada e a Velho Barreiro Limão, entre outras, tudo produzido por mais de 400 funcionários. Para Almeida, como a cachaça conquistou o mundo, é preciso sempre investir em novos produtos relacionados. "Inovação para a nossa indústria é fundamental. Não se pode ficar apenas nos produtos tradicionais.
A tradição deve servir como base para a criação de novidades também", aponta. Sob a batuta experiente do comendador, a empresa engarrafa mais de 120 milhões de litros de aguardente por ano e utiliza um complexo sistema de distribuição para atender mais de 400 mil pontos-de-venda no Brasil. Soma-se à unidade de Rio Claro uma em Piracicaba, totalizando 55 mil metros quadrados de área fabril. O que se produz na IRB é uma fatia de 20% do mercado nacional de aguardentes.
"Nossa intenção é sempre pela expansão, pela conquista de novos mercados. E, em se tratando de aguardentes, o desafio é muito grande, pois há muita variedade", analisa Almeida. Como antigamente, a cachaça produzida ali é armazenada em grande tonéis de madeira de jequitibá rosa, com capacidade para 1 milhão de litros cada. E o aroma fantástico pode ser sentido por quem visita a fábrica. A empresa também é das principais exportadoras de cachaça, com presença em mais de 20 países de todos os continentes, entre eles Estados Unidos e Japão.
Para uma conquista ainda maior do mercado internacional, comendador Almeida defende uma política mais agressiva por parte do governo federal. Do mesmo modo para o rompimento dos subsídios norte-americanos e o protecionismo europeu para a cana-de-açúcar. "Para vencer isso temos de ter políticos mais sérios, empenhados em ver o progresso do país, como aconteceu com a minha geração de empresários. Esse sentimento está sendo herdado pelas novas gerações de empreendedores", enfatiza. Almeida já identifica nos jovens interessados pela política nacional um novo pensamento emergindo. "São esses jovens que irão mudar tudo e melhorar o Brasil. Nos políticos mais velhos há muito vícios difíceis de serem vencidos. Por isso sou otimista com relação ao futuro do nosso país", salienta com confiança no olhar.
O conselho que dá a quem pensa em se iniciar pela vida empresarial é forte. "Aprendam sempre. Nunca percam a capacidade de aprender. E sejam humildes sem se deslumbrarem com o dinheiro. Só a humildade faz os grandes líderes. Inclusive é a humildade a melhor companheira para o mundo dos negócios. Com ela, você está sempre disposto a aprender e a ouvir as pessoas. Com isso, consegue identificar as oportunidades com mais facilidade", conclui.
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