Eles são grandes pesquisadores e ótimos gestores. Confira aqui no site a entrevista na íntegra que fizemos em família, com pai e filho, e saiba o que está acontecendo no setor, na visão dos empresários. E quem é, e o que faz realmente, a Fermentec:
TRIFATTO: VAMOS COMEÇAR CONTANDO UM POUCO SOBRE A VIDA E A FORMAÇÃO DOS SENHORES:
AMORIM NETO: Eu fiz agronomia já almejando trabalhar na Fermentec. Fiz mestrado na Escócia, fiz um MBA em administração, fiquei três anos como consultor de microbiologia e processos, e há pouco mais de um ano estou na parte de planejamento, administração e financeira. Acho que para tocar uma empresa é necessário conhecer a fundo todas as áreas envolvidas.
HENRIQUE AMORIM: Eu trabalhava para que o Brasil produzisse um café de melhor qualidade. Mas na época, o Instituto Brasileiro do Café não criava condições para que o preço do café bom fosse maior que o preço do café ruim. Eu estava decepcionado e me indagava: Será que não estou perdendo tempo? Com a vinda do Pró-álcool, em 1975, eu notei uma oportunidade de dar assessoria de fermentação. Eu era professor de bioquímica na ESALQ e mudei do café pra fermentação. Aí veio a oportunidade: Um amigo tinha uma usina na região de Ribeirão Preto e perguntou se eu não queria ajudá-lo a melhorar a fermentação. Comecei a medir o processo e ver o que poderia melhorar. O sucesso nos três primeiros meses foi tão grande, que outras duas unidades de usinas quiseram assessoria também. Isso era 1977.
TRIFATTO: E AÍ FORAM OS PRIMEIROS PASSOS DA FERMENTEC...
AMORIM: Exatamente. E as usinas queriam cada vez mais, eu sozinho não iria dar conta, por isso contratei um micro-biologista, um químico, e investi nas pesquisas para desenvolver novas tecnologias e entender melhor a fermentação. Tudo isso era feito na ESALQ. Foi um sucesso. Depois de três anos outras usinas vieram se agregar, e estas três primeiras usinas foram montando novas destilarias. Fomos crescendo juntos! Depois passei a alugar salas e nesses últimos 10 anos, com o boom do álcool, nós crescemos muito e eu tive que fazer um lugar nosso.
TRIFATTO: O SR. CONSTRUIU A SEDE DA FERMENTEC EM PIRACICABA EM 2006. O QUE MUDOU?
AMORIM: No início as pesquisas e testes eram feitos todos nos laboratórios da ESALQ, que eram nossos parceiros. Hoje em dia, como temos o laboratório aqui, fazemos tudo aqui mesmo, na sede. Uma grande mudança já havia ocorrido no fim da década de 80, quando houve uma crise do álcool e meus clientes começaram a fazer açúcar. Entramos nesse ramo também. Hoje somos especialistas em açúcar e álcool. Temos ligação com várias universidades, em vários países, e fizemos um curso internacional no fim do ano passado.
TRIFATTO: QUANTAS USINAS PARCEIRAS A FERMENTEC POSSUI?
AMORIM: Quase 70 unidades, que produzem de 30 a 40% do álcool e açúcar no Brasil. Temos clientes também no Equador, na Guatemala, no México.
TRIFATTO: EXPLIQUE PARA O LEIGO O QUE É UMA FERMENTAÇÃO ALCOÓLICA E QUAL A IMPORTÂNCIA DESTA FASE PARA O PRODUTO FINAL.
AMORIM: A fermentação é um microorganismo, uma levedura, muitíssimo parecida com a levedura de pão. Mas existem leveduras para cada tipo de bebida alcoólica e para o etanol. Pode ser que uma sirva para a outra, mas elas são específicas. Hoje as quatro que estão no mercado de etanol no Brasil, 80% são as duas da Fermentec. A Coopersucar tem as outras duas. A levedura transforma o açúcar que está no caldo de cana em álcool e gás carbônico.
TRIFATTO: E ESSAS DUAS LEVEDURAS DA FERMENTEC SÃO UTILIZADAS, ALÉM DO ETANOL, PARA BEBIDAS ALCOÓLICAS TAMBÉM?
AMORIM: Sim. No México damos assessoria para a Tequila Cuervo (a maior produtora de tequila do mundo), há 21 anos. Também trabalhamos com a Bacardi, há 6 anos, que é a maior produtora de rum do mundo. Temos uma levedura testada recentemente na Escócia, pra fazer whisky, na tese de mestrado do meu filho.
TRIFATTO: JUSTO NA ESCÓCIA, OS MAIORES PRODUTOERS DE WHISKY, E ONDE ESTÃO OS MELHORES WHISKYS! ISSO COM CERTEZA AMPLIARÁ AINDA MAIS O MERCADO DA FERMENTEC...
NETO: Então, eles só têm duas leveduras para tudo isso, que são utilizadas há mais de 300 anos. Eu apresentei, em um congresso, três, e uma delas, a CAT1, além do rendimento de fermentação ser igualzinho, produziu um aroma muito parecido. Percebi que eles têm grande vontade de começar a usar isso em escala industrial, mas a gente esbarra na cultura, na tradição.
TRIFATTO: QUAL A SUA MAIOR MOTIVAÇÃO PARA O TRABALHO DIÁRIO?
AMORIM: Saber que através das pesquisas da Fermentec, podemos melhorar a qualidade de vida, evitando os desperdícios.É um absurdo uma destilaria fazer 60 litros de álcool com uma tonelada de cana. Um tonelada tem que dar 80 litros. Pesquisamos para melhorar. Só para se ter uma idéia, a eficiência da fermentação em 1977 era de 75%. Hoje é 92%. O consumidor final sente isso no bolso.
TRIFATTO: O QUE AINDA PODE MELHORAR, EM TERMOS DE DESPERDÍCIO?
AMORIM: Sempre medir todas as perdas. Na Austrália e na África do Sul, bons produtores de açúcar, não se mede todas as perdas dentro da fábrica. Aqui no Brasil pelo menos os clientes da Fermentec eu sei que medem. Hoje nós temos tecnologia para fazer isso. Só para você ter noção, uma usina que mói 1 milhão de toneladas na safra, 1% de perda significa ao redor de 1 milhão e meio de reais. Então 0,1 significa 150 mil reais!
TRIFATTO: QUAIS FORAM OS PRINCIPAIS TRABALHOS JÁ REALIZADOS PELA FERMENTEC?
AMORIM: Foram fases. Começamos a medir as perdas nos processos de fermentação e conseguimos ótimos resultados. Basicamente nós mediamos eficiências e otimizávamos o rendimento da fermentação, conhecendo melhor temperatura, as leveduras... Selecionamos leveduras na década de 70, mas durante o processo elas podiam ser substituídas por outras e nós não tínhamos como medir isso. Até que veio a cariotipagem, e começamos a identificar as leveduras através do DNA. Fomos os primeiros a fazer aqui no Brasil.
É como subir uma escada. São degraus. Primeiro, um colega nosso, o Joaquim, adaptou uma tecnologia para medir bactéria viva. Foi uma revolução, e até hoje se usa essa metodologia. Depois fizemos uma metodologia para medir perdas... outra grande tacada. Depois descobrimos que o tempo de fermentação era alto por causa da temperatura e por causa da perda de fermento. Tudo através de analises industriais e estatísticas.
O controle da temperatura também foi um avanço grande, para poder trabalhar com alto teor alcoólico e o controle das bactérias. E atualmente, foi descobrir por que essas leveduras são tão resistentes, descobrir seu genoma, decodificar seus genes... isso será usado no futuro para fazer engenhara genética e melhorar as leveduras.
E agora, temos esse estudo de quase cinco anos na usina da Pedra, em sertãozinho,para trabalhar com 16% de teor alcoólico. É a primeira vez no mundo que se consegue isso.
TRIFATTO: HOJE VOCÊS CONSEGUIRAM TAMBÉM DECODIFICAR O GENOMA DAS LEVEDURAS. O QUE ISSO SIGNIFICOU NA PRÁTICA?
NETO: Isso é mais recente, de três anos pra cá. Decodificar todo o DNA de uma levedura serve para saber, por exemplo, quais genes ela utiliza para ter uma maior tolerância ao alto teor alcoólico. Sabendo quais genes são utilizados, e para quê, podemos no futuro montar uma levedura com os melhores genes, para melhorar o rendimento.
TRIFATTO: ISSO DEVE AFETAR NO PREÇO FINAL DO PRODUTO...
NETO: É, hoje ainda está inviável fazer uma levedura dessa pelo mesmo preço de uma selecionada. Com certeza o preço aumenta, mas o rendimento será bem maior também.
TRIFATTO: A VERBA DAS PESQUISAS VEM EXCLUSIVAMENTE DOS CLIENTES? ESTES TE CONTRATAM PARA FAEZR UMA PESQUISA DETERMINADA?
AMORIM: Sim, vem dos clientes. É raro contratarem para fazer uma pesquisa determinada. Quando tem um problema especial, cobramos separado. Mas 99% das pesquisas são problemas comuns a todos, que pagam taxas fixas. De 16 a 20% do faturamento da Fermentec é para pesquisa, na área de equipamentos, laboratórios, metodologia, processos de fermentação...
TRI: MUITAS PESQUISAS FEITAS NO MEIO ACADÊMICO NÃO CONSEGUEM SE REALIZAR NA PRÁTICA. COMO GARANTIR QUE DETERMINADA PESQUISA VAI DAR CERTO NAS USINAS?
NETO: Tem muitas pesquisas que você realiza na universidade, que funcionam somente no laboratório, e na prática os resultados são diferentes, pois outros fatores influenciam. E isso é muito difícil de fazer, mas foi o nosso grande crescimento e é uma das coisas que o Amorim sempre se preocupou. Nossas pesquisas são focadas e isso é um incentivo muito grande para quem trabalha aqui.
AMORIM: Para conseguir levar uma pesquisa para a prática é necessário experiência e fazer as metodologias corretas. E nós temos o feeling. A coisa mais importante é saber o que a prática precisa, para dar um passo pra frente. Então desde o começo eu tomei como princípio de não tentar passar a experiência do laboratório direto pra indústria. Essa é minha maior sugestão. Precisa averiguar e medir o prejuízo se não der certo.
TRIFATTO: A PESQUISA DE ALTO TERO ALCOÓLICO FOI UMA VERDADEIRA REVOLUÇÃO NA FERMENTAÇÃO ALCOÓLICA EM TODO O MUNDO...
AMORIM: Isso foi uma verdadeira revolução. Temos trabalhado nesse processo de produção de alta concentração de álcool nos últimos cinco anos. O caldo da cana tem de 16 a 18% de açúcar e após a fermentação, a concentração de álcool é de 8%. Isso é chamado de vinho, que ao ser destilado no vapor, libera álcool. A média que se gasta de energia durante esse processo hoje no Brasil é 8%, o que produz, para cada litro de álcool, 12 litros de vinhaça, utilizada para fertilização. Mas o volume é muito grande e economicamente é inviável o transporte para longe. As áreas de sacrifício podem contaminar o solo e a água, além de ter uma lei estadual que limita o volume de linhaça que pode ser colocado em cada tipo de solo. Eu previ isso há uns sete, oito anos atrás e comecei a estudar pra ver se conseguíamos aumentar a concentração de álcool, para produzir menos vinhaça.
TRIFATTO: E POR ESSE PROJETO INCLUSIVE VOCÊS CONQUISTARAM O SEGUNDO LUGAR DO PRÊMIO FINEP DA REGIÃO SUDESTE, PELA CATEGORIA PEQUENA EMPRESA.
AMORIM: É que o nosso ainda não está em escala industrial, pois com essa crise o pessoal está investindo menos.
NETO: Esse prêmio é um incentivo direcionado a qualquer empresa, de qualquer área, que investe em inovação. O primeiro lugar foi para uma empresa que juntou o melhor da tecnologia japonesa e americana, e formou uma TV digital abrasileirada. Hoje, mais de 90% de todas as imagens transmitidas no Brasil é com essa tecnologia. Foi uma coisa muito bem sacada. Mas nós ainda estamos atrás desse prêmio, esperamos ano que vem estar entre os três primeiros novamente.
TRIFATTO: NESSA PESQUISA, UMA DAS MAIOERS INOVAÇÕES DIZ RESPEITO À RECICLAGEM DE LEVEDURAS...
AMORIM: É o seguinte: Nos EUA eles fermentam com 18%. Só que a levedura morre no final. E o tempo de fermentação é de 50 a 70 horas. Aqui no Brasil, com a nossa pesquisa, nós fermentamos com 16, mas levamos 17 horas e a levedura não morre no fim do processo. Isso ninguém conseguia. Conseguia-se chegar, no máximo, a 10%. É a primeira vez no mundo que se consegue isso!
NETO: Até hoje tem gente que ainda não acredita.
TRIFATTO: ESSE PODE SER CONSIDERADO O MAIOR PROJETO JÁ DESENVOLVIDO PELA EMPRESA?
NETO: Olha, acho que sim. Nós quebramos paradigmas. É um marco no rendimento da fermentação. Já temos 99% de certeza que ela da certo em escala industrial, mas bem na época da implementação veio a crise. Esse ano agora parece que o setor está retomando, o preço do álcool e do açúcar está muito bom. Então acreditamos que este ano consigamos implementar esse processo.
AMORIM: Acho que de passo grande, foi. Nosso e dessa usina, que também colocou muito dinheiro. Ajudaram demais. Estamos passando de 10 pra 16%! Ficamos 30 anos para subir de 6% pra 9%...
TRIFATTO: O CUSTO DISSO VAI SER MUITO ALTO, AS USINAS TERÃO DE FAZER ADAPTAÇÕES, COMPRAR NOVOS EQUIPAMENTOS, COMO SERÁ O PROCESSO?
NETO: Alguns equipamentos terão que ser comprados, mas não é necessário alterar o processo de fermentação inteiro. O investimento não será grande.
TRIFATTO: E O RETORNO?
NETO: A gente fez um cálculo: Se todas as usinas do Brasil hoje, implementassem essa tecnologia, iriam economizar 1 bilhão de reais por ano. A vantagem econômica é enorme, pois os resíduos da produção de vinhaça, os quais nunca se sabe onde colocar, será 40% a menos. Reduz-se também o gasto com energia, sobrando mais para vender, pois as usinas também produzem energia.
TRIFATTO: ESSA PESQUISA FOI FEITA EM PARCERIA COM A UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA E A USP. COMO SÃO FORMADAS ESSAS PARCERIAS? MUITA GENTE PEDE PARA TRABALHAR COM VOCÊS?
NETO: São contatos do Amorim e do Mário Lúcio, coordenador científico da Fermentec. Meu pai conhece muita gente e escolhe as pessoas em quem ele confia para trabalhar. Tem muita gente que gostaria de fazer parcerias na área da pesquisa, mas tem muita empresa que gostaria de vender seus produtos para as usinas, por exemplo, para diminuir a espuma na Fermentação. Aí nós testamos e pesquisamos o funcionamento do produto e podemos sugerir se ele for bom, mas se não funcionar, nada feito.
TRIFATTO: E POR ESSAS INDICAÇÕES VOCÊS RECEBEM ALGUMA COISA?
NETO: Não, pois temos credibilidade no mercado e confiança no nosso trabalho. Quando sugerimos equipamentos, antibióticos, etc, de outras empresas, não ganhamos nada por isso, pois somos pagos para dar consultoria. O único royolts que ganhamos é das leveduras CAT 1, isolada na Usina Catanduva, e a PEDRA 2, isolada na Usina da Pedra.
TRIFATTO: QUEM UTILIZA A CAT 1 E A PEDRA 2 HOJE EM DIA?
NETO: Todos os nossos clientes. Em torno de 40% de todo álcool produzido no Brasil é fermentado com as nossa leveduras.
TRIFATTO: EXISTEM OUTRAS CONSULTORIAS NO BRASIL QUE PODEM SER COMPARADAS À FERMENTEC?
NETO: Olha, igual a Fermentec não. Nós temos a assessoria que é feita em equipe, a pesquisa, os cursos e treinamentos, inclusive para analistas e usinas, que querem aprender a teoria e a prática. Temos as análises também, que vendemos, são diversas, a parte de viabilidade, contaminação, a parte química, tudo o que você imaginar, nós fazemos análise na parte de usina.
TRIFATTO: QUEM SÃO OS PRINCIPAIS CONCORRENTES DA FERMENTEC, ENTÃO?
NETO: Existem alguns consultores autônomos, e estes poderiam ser considerados nossos concorrentes. O próprio CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) é um concorrente. Mas nós temos outros serviços e produtos. Fazemos análises, e existem algumas universidades públicas que também as fazem, por preços menores, ou subsidiadas, por serem do governo. Na área de cursos e treinamentos, podemos considerar concorrentes aquelas empresas e escolas que também oferecem esses serviços.
TRIFATTO: VOCÊS TAMBÉM RECEBERAM O PRÊMIO NACIONAL DE CONSERVAÇÃO E USO RACIONAL DE ENERGIA 2009, NA CATEGORIA MICRO, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS. QUAIS FORAM AS PRINCIPAIS POLÍTICAS INTERNAS DA EMPRESA QUE OS LEVARAM A ESSA CONQUISTA?
NETO: No início do ano passado montamos uma equipe de otimização de recursos ao meio ambiente e trabalhamos na redução de energia, água, cartuchos de impressora, papel sulfite, papel toalha e copo descartável. No jornal interno, publicamos dicas de como economizar e todo mês, após as devidas medições, fazíamos reunião para analisar o que ainda precisava melhorar. A conscientização dentro da empresa repercutiu também nas casas dos funcionários e para os clientes, que recebem outra publicação nossa, a Fermentec News. Fora isso, sempre desenvolvemos metodologias e aparelhos para gastar menos água e há 15 anos estamos substituindo todos os reagentes tóxicos por não-tóxicos.
AMORIM: Em um ano reduzimos 25% o consumo de energia, praticamente sem investimento financeiro, apenas com atitudes simples, como desligar monitor, ar condicionado, apagar as luzes quando sai da sala...
TRIFATTO: EM QUE PATAMAR ESTÁ O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO BRASIL HOJE?
AMORIM: Você sabia que o Brasil é o país no mundo que mais tem energia sustentável? 43% da nossa energia é reciclada. Na Europa é 3,5%. Um absurdo, não é? Eles querer dar lição na gente, mas eles têm é que aprender com a gente!
TRIFATTO: 2010 VAI SER UM ANO BOM PARA O SETOR? O QUE PODEMOS ESPERAR?
AMORIM: Em termos de preço de açúcar e álcool eu acho que vai ser animador e o pessoal vai conseguir sair do buraco.
TRIFATTO: PREÇOS ANIMADORES PARA O PRODUTOR OU PARA O CONSUMIDOR?
AMORIM: Para o produtor. Na verdade o preço do álcool estava muito baixo. No início do ano passado chegou na bomba abaixo de 1 real. E a usina recebia de 50 a 55 centavos, sendo que o custo é de 75. Venderam com prejuízo... Se você pegar a média do ano, talvez seja R$ 1,20, no máximo.
TRIFATTO: AGORA, BEIRANDO OS 2 REAIS NA BOMBA, TÉCNICOS DA ÁREA DETECTARAM O DESABASTECIMENTO. O SETOR NÃO TEME O DESABASTECIMENTO?
AMORIM: Em dezembro esse consumo já caiu 30%, por causa do preço. Acredito que até março, abril, o preço caia um pouco. Acontece que devido às chuvas, a safra parou. 50 milhões de toneladas ficaram para o ano que vem, ou seja 10% da produção. Teve região que parou 10 dias seguidos a safra... então não foi somente a quantidade de cana desviada para fazer açúcar, que em 2009 foi mais. Em 2007 e 2008 o preço do açúcar estava a preço de banana pro consumidor, e as usinas levaram dois anos seguidos de prejuízo, com o açúcar e com o álcool. Mas os empresários acreditavam que o álcool ia ser bom e investiram em novas usinas, bem quando estava para estourar a crise. Ai foi cacetada! E o preço vai continuar bom pelo menos até julho, agosto.
NETO: E não tem álcool para vender, não adianta.
TRIFATTO: MAS AS CHUVAS NÃO SÃO PREVISTAS NESSA ÉPOCA DO ANO?
NETO: Nessa época do ano sim, mas acontece que o ano passado inteiro choveu muito mais que o previsto, muito além do esperado... Teve usina que parou a produção por mais de um mês consecutivo... Imagine que as usinas funcionam durante 24h! Olha só o prejuízo!
TRIFATTO: AGORA, O GOVERNO DECIDIU BAIXAR DE 25% PARA 20% A PROPORÇÃO DE ETANOL ADICIONADO À GASOLINA, MEDIDA QUE VISA COMBATER A ALTA DOS PREÇOS E EVITAR O DESABASTECIMENTO. ISSO NÃO É UMA SINALIZAÇÃO DE QUE O PREÇO ESTÁ MESMO MUITO ALTO? COMO O SETOR ENXERGA ESSA MEDIDA?
NETO: É que está faltando álcool. O preço ficou muito baixo há dois anos, e hoje teve que ser elevado, mas esse preço alto não era para ter acontecido. Há uma elevação natural em toda entre safra, mas dessa vez aumentou muito, devido a diversos fatores, entre chuvas, crises, e maior foco na produção de açúcar, e a falta do produto no mercado. A medida do governo é necessária, para dar uma segurada no consumo, ele intervém quando necessário, e iria faltar álcool no mercado se não houvesse intervenção. Acredito que essa intervenção tenha ocorrido realmente para não faltar álcool, e aí, consequentemente, abaixar os preços, pois uma cosia leva a outra.
TRIFATTO: É, PORQUE O CONSUMIDOR JÁ ESTÁ RECLAMANDO DO PREÇO E INCLUSIVE ACHA QUE NÃO VALE MAIS A PENA ABASTECER COM ÁLCOOL...
NETO: o consumidor pensa que não está valendo a pena colocar álcool. Essa é a grande vantagem do carro flex, ele dá a opção. O próprio produtor não está contente com essa situação. É claro que após anos de prejuízo, o preço alto pode ajudar as usinas a saírem do buraco, mas o consumidor estando insatisfeito, também é ruim para o usineiro.
TRIFATTO: O PREÇO ALTO DA CANA E DO AÇÚDAR, É COMO SE O CONSUMIDOR ESTIVESSE SENTINDO AGORA, NO BOLSO, OS REFLEXOS DESSA CRISE?
NETO: Sim, os usineiros sentiram até hoje, com muitos prejuízos e preços ruins. Agora, com o preço bom, é o consumidor quem sente. O interessante é quando o preço está bom para os dois lados. Os usineiros estão preocupados. Isso não é bom para o setor, nem para a imagem deles.
TRIFATTO: DIZEM QUE 2009 FOI O ANO DA RETOMADA... A CRISE ESTÁ SUPERADA?
AMORIM: Não porque a divida é enorme. Então acho que muita gente ainda não retomou não... Mas de que adianta o preço estar muito bom? Por que ele está muito alto? Porque não tem açúcar... já venderam tudo. A maior parte já vendeu a safra do ano com o preço antigo. Álcool nem se fala. Por isso muita gente ainda está apertada. Mas de uma maneira geral, se os preços se mantiverem, muita gente vai sair do buraco.
TRIFATTO: POR SER UMA EMRPESA DE CONSULTORIA, MUITOS USINEIROS DEVEM TER PARADO DE INVESTIR EM PESQUISA. A FERMENTEC SENTIU ISSO?
AMORIM: Existem dois tipos de empresário: Um que acha que a nossa consultoria é a base pra tirar eles do buraco. Estes estão devendo, mas continuaram investindo conosco. E aí nós negociamos, renegociamos contratos... quando está ruim, se é parceiro, é para os dois lados. Mas têm outros que a primeira coisa que cortam é a consultoria. Acham que é um luxo, talvez, não sei. Agora, quando a coisa ta ruim, eu acho que uma das coisas mais importantes é a eficiência. O preço do álcool estava ruim esse ano (para o produtor), e melhorou agora no final. Se ta ruim, e se ainda tem a eficiência baixa, pior ainda, é ou não é? A cada 0,1 de perda pra cada milhão de tonelada, são 100, 150 mil reais.
TRIFATTO: ENTÃO O INVESTIMENTO DIMINUIU MUITO?
AMORIM: Diminuiu. Estamos retomando agora também.
TRIFATTO: VOCÊS TIVERAM PROJETOS IMPORTANTES PARALISADOS POR CONTA DESSA CRISE MUNDIAL?
AMORIM: Não. E não mandamos ninguém embora. Por que eu previ isso: As usinas ficaram dois anos tomando prejuízo, aí depois ainda veio a crise. Era previsível que alguma coisa aconteceria. E por incrível que pareça, 2008 foi um dos anos em que nós mais tivemos lucro aqui na Fermentec. Quando a crise começou, começaram a contratar a gente porque queriam mais, mas depois, no pior da crise, cortaram. Nós tínhamos acabado de contratar novos colaboradores, um melhor que o outro, fizemos treinamento... Não podia mandar embora. Mas eu avisei: Olha, esse ano não tem distribuição dos lucros, mas eu não vou mandar ninguém embora e vamos superar a crise juntos.
Quando se fala em pesquisa a negada treme, acha que vai jogar dinheiro fora. Mas se nós não tivéssemos feito pesquisa, já tínhamos desaparecido.
TRIFATTO: E PARA O FUTURO, QUAIS SÃO AS PERSPECTIVAS PARA A FERMENTEC?
AMORIM: Nós esperamos conseguir colocar em prática o sistema para trabalhar com alto teor alcoólico. Pesquisaremos novas leveduras, mais eficientes, que fermentem mais rápido e mais tolerantes aos stress.
TRIFATTO: CONTANDO O SETOR SUCROALCOOLEIRO COMO UM TODO, O QUE PODEMOS ESPERAR DO FUTURO?
AMORIM: É brilhante. Para aqueles que sobreviverem. O álcool veio pra ficar.
TRIFATTO: O QUE A FERMENTEC LHES DEU DE MELHOR?
AMORIM: Pra mim é um sentido de vida. Melhorar a eficiência significa gerar mais lucro, reinvestir, gerar mais emprego e aumentar os salários, para que todos possam ter uma vida mais descente. Isso para mim é a coisa mais importante.
NETO: Para mim, em primeiro lugar, deu minha formação. E hoje é um sentido de vida também.
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