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Ivo Pitanguy, Mestre em beleza e autoconfiança

 

Por; Marcelo Lapola
"Vou ver se o professor já chegou", diz a secretária sorridente e em seguida faz uma ligação interna. Poucos minutos após a chegada, meu encontro com o Prof. Ivo Pitanguy se dá ainda no elevador, rumo à sua sala. "Pode deixar que nós vamos daqui", diz ele à assessora. A conversa já se inicia por ali mesmo. "Tenho a impressão de que o barulho da bomba do aquário vai atrapalhar sua gravação", diz generosamente preocupado enquanto conta sobre seu caso de amor com o Rio de Janeiro, iniciado ainda quando era estudante de Medicina em Belo Horizonte.
Por suas mãos passaram e ainda passam milhares de pacientes, de estrelas de Ho-llywood até anônimos carentes, que ele atende no serviço pioneiro que criou na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Nesses dois extremos identifica sentimentos humanos idênticos: a busca das pessoas pela harmonia de sua imagem com sua alma.
Perto de completar 60 anos de carreira, aos 84 de idade, o cirurgião plástico mais respeitado do mundo não parece nem um pouco simpático à ideia de aposentado-ria. Em seu currículo, além da criação de muitas técnicas cirúrgicas utilizadas por cirurgiões de todo o planeta, estão mais de 60 mil cirurgias e cerca de 500 médicos formados em seu instituto.
Foi ali, em sua clínica em Botafogo, que o mestre em beleza concedeu essa entrevista à Trifatto.


TRI - A cirurgia com fins estéticos cumpre seu objetivo quando ela é reparadora também da alma?

IVO PITANGUY - O bem-estar com a imagem é muito importante para estar de bem com você mesmo, porque a imagem também é uma parte sua. Então, a cirurgia quando bem conduzida ou até mesmo quando não feita, porque há muitos casos em que ela não é indicada, é um elemento a mais do ser humano de lutar contra as dificuldades e assim mudar o seu mundo.



TRI - Ao que parece buscamos a beleza sem motivos. Atualmente a estética parece que é o meio e o fim. O senhor concorda com isso?

IP - Não diria nesses termos. Hoje em dia há duas grandes maneiras de se considerar a beleza. Temos o belo em seu sentido amplo, que é menos considerado: as atitudes humanas, atitudes dos países, o relacionamento. Por outro lado, existe o marketing impondo, a todo momento, uma beleza que não é a beleza por si, é a beleza para ven-der, é a beleza-mercadoria. Isso também não é bom, porque essa beleza-mercadoria não representa o cânone étnico de beleza de cada grupo humano. Mas isso não é novo. Sempre houve, ao longo da história da humanidade, uma certa tentativa de cerceamento daquilo que é considerado belo e o que não é, para se estabelecerem padrões.



TRI - Mas nos tempos atuais os padrões não estão parecem mais descartáveis?

IP - Como a força das imagens nunca foi tão poderosa como a dos nossos dias, predomina uma época em que os padrões de beleza são jogados fora para em seguida surgirem outros. Um exemplo são as modelos supermagras que ainda existem muito, estão aos poucos cedendo à pressão de que não devem ser tão magras e que devam ter alguma forma. Então, os padrões de beleza atualmente já estão mais sujeitos à opinião do público que multiplica suas manifestações pela internet, em blogs, no Twitter e outras redes sociais. Tenho visto um movimento para uma maior democratização no estabelecimento de tendências e padrões.



TRI - Diante de tantos apelos, dessa beleza pasteurizada que tentam nos impor e de que muitos são vítimas, a mídia vendendo padrões de beleza, é difícil identificar se a pessoa está bem com ela mesma e se realmente precisa fazer uma cirurgia plástica estética?

IP - Eu diria que não é difícil e não é fácil (risos). Mas é obrigatória a procura. Quando uma pessoa nos procura e tem uma necessidade, procuramos sentir aquela pessoa. Por exemplo: alguém que é muito compulsivo ou que esteja sublimando problemas e que isso possa detonar problemas de ordem psicológica muito mais importantes. Essa pessoa deve ser tratada antes de ser operada. E, em muitos casos, mais tratada do que operada. Ou então as duas coisas. Mas é fundamental essa interação, essa procura. Na Santa Casa, eu criei um serviço pioneiro no mundo que é o atendimento à população mais carente. E nós não diferenciamos o que é cirurgia estética ou reparadora. Aquilo que causa um transtorno à pessoa é digno da nossa atenção. Lá, como aqui na clínica, nós temos psicólogos, nutrólogos para ava-liar o paciente. No final, tudo é para considerar o grau de desconforto que a pessoa sente. Se puder ser aliviado com uma cirur-gia bem indicada, não vejo problema.



TRI - Nesse seu trabalho na Santa Casa conseguiu ter uma visão ampla da dimensão humana em sua busca por bem-estar? Tanto entre os mais carentes até os milionários os sentimentos, as angústias são as mesmas?

IP - Isso é uma verdade. Aqui na clínica mesmo, atendo pessoas de todos os lugares do mundo. Tive aqui uma visão do ser humano em seus grupos e etnias diversas. E na Santa Casa, de etnias parecidas mas, de um modo geral, com a parte básica de necessidades funcionais não resolvidas, com carências de instrução e financeira. Nesses casos sinto com muita clareza onde um indivíduo passa a ser igual ao outro. Com relação à sua imagem, uma pessoa vai sofrer ou ficar contente independente do seu grau de sucesso, da sua classe social. O sentido de felicidade não tem nada a ver com sentido de poder, de riqueza. A pessoa rica ou pobre sofre da mesma forma. O sonho do pobre é ficar rico, não é? E o rico, se estiver triste, o que vai querer da vida? (risos)



TRI - Há uma procura maior dos homens pelas cirurgias plásticas estéticas. A que se deve essa preocupação maior do homem com a imagem?

IP - Na realidade, a mulher hoje ocupa uma posição muito mais importante na sociedade e isso deixa o homem mais a vontade consigo mesmo. Ele hoje não tem de ser dono de todas as situações. Isso então deu ao homem um certo espaço e tempo para que ele se ocupe de si mesmo. E a sociedade é bem mais compreensiva em todos esses aspectos que nós homens necessitamos diante da vida.



TRI - O homem pode assumir mais suas fragilidades...

IP - Eu acho que a maior força de um homem está justamente na capacidade de assumir suas fragilidades. É nossa maior maturidade.



TRI - A popularização das cirurgias plásticas nas últimas décadas também trouxe coisas perigosas. O que o senhor acha, por exemplo, de um cirurgião que faz consórcios de cirurgias de seios para a colocação de próteses de silicone, nos quais não é dado à mulher nem escolher a prótese? E dos reality-shows?

IP - Todos esses aspectos são antiéticos. Essa vulgarização, essa banalização, esses reality shows de cirurgias plásticas que passam na televisão, tudo isso é um pouco fora da realidade do que entendo como correto e ético. Ao mesmo tempo em que a cirurgia ganhou um aspecto importante para o ser humano, ela foi também foi mal utilizada. Aí surgem então as ligações antiéticas e errôneas. Tanto que hoje em dia está mais difícil explicar o que é cirurgia plástica do que anteriormente. Justamente porque ela exata e correta não é nada disso, não é consórcio, não é reality show. Deve ser feita, sim, pelo contato pessoal com uma estrutura que venha representada por um cirurgião em quem a pessoa tenha confiança.



TRI - A impressão que os reality shows passam, por exemplo, é que o cirurgião plástico é um sonho de consumo de mulheres e homens...

IP - É algo totalmente condenável, um erro. Isso é uma coisa que a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica tem lutado muito contra. É preciso ver a cirurgia plástica no seu valor capaz de dar bem-estar às pessoas, mas como um ramo da Medicina que deve ser cercado de toda liturgia e seriedade de qualquer outra especialidade. Como um ramo nobre da Medicina.



TRI - No lado pessoal, quais seus prazeres mais simples?
IP - Meu prazer maior é estar em casa com minha esposa, meus filhos, alguns amigos, meus livros, quadros, meus cachorros (risos). As coisas simples estão na minha ilha, com meus bichos também. Coisa que eu mais gosto é o contato com a natureza. Mais eu estou em contato com as coisas que são criadas no mundo como nós, mais me sinto bem. Sempre fui uma pessoa que nunca gostou de muita gente junta. Gosto muito do ser humano, mas nunca gostei de muita gente junta. Gosto também dos esportes, jogar meu tênis, do mar. E o mais importante para mim são os pequenos momentos nos quais posso me reunir com as pessoas e me sentir realmente à vontade e de bem com elas. Isto é a maior riqueza da vida.
TRI - O senhor sempre diz em entrevistas que nunca se submeteu a nenhuma cirurgia plástica porque "se tolera" do jeito que é. Então, "qual o segredo para se tolerar"?

IP - É ter um ego condescendente. Então, você vai me dizer que é preciso ser um pouco babaca para se tolerar ao longo da vida (risos)? Tem que ser um pouco também, mas eu diria que é uma babaquice controlada diante da vida.



TRI - O que representa o Rio de Janeiro nessa sua alma de mineiro?

IP
- É aquele amor que você vai deixando te invadir, um amor verdadeiro porque não passa nunca e, ao mesmo tempo, é uma certa glória de você estar na sua morada na cidade mais bonita do mundo. Quanto mais eu viajo, mais eu sinto essa beleza. Apesar de todos os problemas, o Rio não perdeu sua beleza.




"A maior força de um homem está justamente na capacidade de assumir suas fragilidades. É nossa maior maturidade."

"É saudável que as pessoas se cuidem, mas passar três horas por dia numa academia é um exagero. É mais importante desenvolver o intelecto do que os músculos do bumbum."

"A cirurgia, quando bem conduzida ou até mesmo quando não feita, é um elemento a mais do ser humano de lutar contra as dificuldades e assim mudar o seu mundo."



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